sábado, 10 de abril de 2010

Capítulo XIX

Capítulo XIX


O Thabor de Pereira.



Manoel Pereira da Silva Júnior já não é o abastado fazendeiro da Pirapetinga, já não tem aquele entusiasmo de outrora. É já um homem sumido pelos revezes da vida. Está completamente arruinado e sua família jogada na miséria.
Do fausto à pobreza. Assim mesmo a perseguições dos Fortes continua.
Só uma coisa o salva: o reconhecimento a utilidade e adaptação de sua estrada pelo Governo de Minas.
E a oposição dos Fortes, senhores de posições quer na política da Província de Minas Gerais, quer na magistratura provincial quer na imperial.
Tinha que se entregar ao sacrifício da miséria e deixar seus filhos na orfandade, desdita que já sonhara Pereira.
A trama para seu extermínio está se urdindo.
A casa sede da fazenda Pirapetinga, que se debruça sobre a margem direita do rio Preto é teatro da trama.

Foto atual da fazenda Pirapetinga,( São Francisco). FHOAA 2009


Das janelas do lado do rio, avista-se a estrada que vem do Bom Jardim à vila do Rio Preto.
Numa dessas salas a que servem essas janelas, estão o proprietário da fazenda Antônio Francisco Ferraz, o Dr. Gabrielzinho e “Tira-Prosa”, quando pela estrada, desce o infortunado construtor de estradas.
Ferraz diz ao desumano “Tira-Prosa”:
_ Lá vai ele!
O doutor Gabriel acrescenta:
_Repare bem, para conhecê-lo Bem.
Manoel Joaquim, o “Tira-Prosa”,responde, num gesticular de ombros:
_Aquilo não é nada pra mim. Deixe-o passar para baixo que na volta eu acabo com ele.
De fato Pereira vinha a Vila tratar de seus negócios mal amparados.
02 de maio de 1863.
O dia amanhece cheio de sol.
É o dia consagrado ao martírio do construtor da estrada do Boqueirão da Mira, que de volta da Vila, passa em casa de seu patrício Joaquim da Fonseca Moura, negociante na Barra Mansa, sob a firma Cardoso Nogueira+ Moura, casa que fica distante da fazenda de Santa Clara, duas léguas mais ou menos.
Pereira está de regresso da Vila e com muita urgência, pois tem de seguir para Santa Rita, a fim de atender um chamado por carta de seu amigo Cassiano Ferreira de Mendonça, dando-lhe a boa nova de ter chegado a Santa Rita do Jacutinga, um engenheiro do Estado, o doutor Modesto de Faria Bello, que desejava encontrar-se com o construtor da estrada Presidente Pedreira- Bom Jardim.
A carta de seu amigo de Santa Rita está vazada nestes termos:
“ Senhor Manoel Pereira da Silva Júnior.
Compadre e Amigo.
Comunicou-me hoje o engenheiro que já tinha recebido ofício do Presidente autorizando-lhe a contratar a conservação da estrada do Boqueirão e que hoje ia pousar em casa de Ferraz amanhã cedo principiava a examiná-la e que logo no outro dia que vmecê lá passou recebeu o dito ofício por um preto de Santa Clara; será bom que vocemecê venha assistir e contratar. Ele falou para esse ficar e eu lhe disse que lhe preferia, e assim me pediu para lhe fazer ciente do ocorrido. Muito estimarei que fique logo bom do incômodo; eu e sua comadre, muito recomendamos a comadre e as meninas, e aqui estamos para o que lhe for prestante como quem é seu compadre. Amigo. Cassiano Ferreira de Mendonça. Santa Rita, 17 de maio de 1863”.







Essa carta foi para a alma martirizada de Pereira, uma centelha de felicidade.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Manoel Pereira Júnior da Silva dirige ao Presidente da Província, o seguinte requerimento:

«Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Presidente da Província de Minas Gerais.
Manoel Pereira d a Silva Júnior empresário expontâneo da estrada de Bom Jardim decretada por lei Provincial nº. 839, de 14 de Julho de 1857, vem respeitosamente requerer a V. Ex. que se digne no dar execução á Lei nº 1.167 de 8 de outubro de 1862, relativa á mesma estrada, visto como aproxima a reunião da Assembleia a que deve ser submetido o resultado do que dispõe a mesma lei afim de resolver como julgar de interesse publico. E porque os interesses do Suplicante se ligam a tal julgamento por isso,
P. a V. Ex. se digne deferir com Justiça.
E. R. M. (a.) Manoel Pereira da Silva Júnior.Estava colado um selo de $100 reis.
Teve esta petição o despacho seguinte :
«Logo que hajam Engenheiros disponíveis será atendido o, pedido do Suplicante. —Palácio do Governo da Província de Minas Gerais, 30 de abril de 1863. Fernandes Torres.
Recebeu ainda Pereira a seguinte comunicação : «Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais, 1 de abril de 1864 — 5ª. Secção. Declaro a Vmcê. em respostas aos seus ofícios de 17 e 19 do mes findo, que n'esta data oficiei ao Engenheiro Modesto de Faria Bello para proceder ao necessário exame e orçamento ,contrato de conservação da estrada denominada de Bom Jardim,com quem melhores condições oferecer, contanto que que tal contrato vigore depois de aprovado por esta Província a quem deve ser submetido.
Deus guarde a Vmcê.
(a) Joaquim Fernandes Torres.

Capítulo VIII


Porfírio Escravo.


Vamos aqui abrir um parêntese para trazer em conhecimento dos que nos lêm, uma passagem já citamos o nome, mas não o biografamos_ Porfírio, escravo.
È natural de São João Del Rei e vive na fazenda de Santa Clara, onde é pedreiro. Veio para ali com 12 anos e agora conta com 52 anos. É escravo da Viscondessa de Monte Verde.
Por ser o mais valente, é escolhido para executar as ordens de seus senhores.
Constam nos autos, em depoimento que ele com outros escravos consumiram Elias de tal, na fazenda, não aparecendo sequer, vestígio do assassinato
Contra o finado Tereziano, José Floriano, seu co-herdeiro manteve na justiça, uma questão de terras, que foi ganha por José Floriano. Este, munido do necessário documento, intima a Tereziano, judicialmente, do ganho de causa.
Quando o meirinho aproximava-se da fazenda de Santa Clara, Porfírio escravo foi esperá-lo à chegada da fazenda, com quatro escravos, deixando-o em “lençóis de vinho”, expressão muito usual na fazenda.
Foi então José Floriano à fazenda entender-se pessoalmente com Tereziano. Quando se aproxima da fazenda, Porfírio instou para que se retirasse, mas, José Floriano ousadamente entra no pátio da fazenda e aí recebe das mãos de Tereziano, uma bengalada.
Porfírio, com um cacete deixou José Floriano ensangüentado. Foi metido no cárcere da fazenda por Porfírio, auxiliado por outros escravos.
Pelos dias que se seguiram aparecia uma bandeja com vários alimentos ao que José Floriano recusava sempre.
À porta do cárcere , escravos que se rendiam, faziam guarda permanente.
A quem recorrer Floriano? Tinha que ali ficar.
Ao fim de cinco dias, aparecem na fazenda, as autoridades da Vila de Rio Preto, obrigando a José Floriano a assinar um “termo de bom viver”.
Manoel Pereira Júnior da Silva dirige ao Presidente da Província, o seguinte requerimento:

«Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Presidente da Província de Minas Gerais.
Manoel Pereira d a Silva Júnior empresário expontâneo da estrada de Bom Jardim decretada por lei Provincial nº. 839, de 14 de Julho de 1857, vem respeitosamente requerer a V. Ex. que se digne no dar execução á Lei nº 1.167 de 8 de outubro de 1862, relativa á mesma estrada, visto como aproxima a reunião da Assembleia a que deve ser submetido o resul¬tado do que dispõe a mesma lei afim de re¬solver como julgar de interesse publico. E por que os interesses do Suplicante se ligam a tal julgamento por isso,
P. a V. Ex. se digne deferir com Justiça.
E. R. M. (a.) Manoel Pereira da Silva Júnior.Estava colado um selo de $100 reis.
Teve esta petição o despacho seguinte :-
«Logo que hajam En¬genheiros disponíveis será atendido o, pedido do Suplicante. —Palácio do Governo da Província de Minas Gerais, 30 de abril de 1863. Fernandes Torres.
Recebeu ainda Pereira a seguinte comuni¬cação : «Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais, 1 de abril de 1864 — 5ª. Secção. Declaro a Vmcê. em respostas aos seus ofícios de 17 e 19 do mes findo, que n'esta data oficiei ao Engenheiro Modesto de Faria Bello para proceder ao necessário exame e orçamento ,contrato de conservação da estrada denominada de Bom Jardim,com quem melhores condições oferecer, contanto que que tal contrato vigore depois de aprovado por esta Província a quem deve ser submetido.
Deus guarde a Vmcê.
(a) Joaquim Fernandes Torres.

Capítulo VIII


Porfírio Escravo.


Vamos aqui abrir um parêntese para trazer em conhecimento dos que nos lêm, uma passagem já citamos o nome, mas não o biografamos_ Porfírio, escravo.
È natural de São João Del Rei e vive na fazenda de Santa Clara, onde é pedreiro. Veio para ali com anos e agora conta com 52 anos. É escravo da Viscondessa de Monte Verde.
Por ser o mais valente, é escolhido para executar as ordens de seus senhores.
Constam nos autos, em depoimento que ele com outros escravos consumiram Elias de tal, na fazenda, não aparecendo sequer, vestígio do assassinato
Contra o finado Tereziano, José Floriano, seu co-herdeiro manteve na justiça, uma questão de terras, que foi ganha por José Floriano. Este, munido do necessário documento, intima a Tereziano, judicialmente, do ganho de causa.
Quando o meirinho aproximava-se da fazenda de Santa Clara, Porfírio escravo foi esperá-lo à chegada da fazenda, com quatro escravos, deixando-o em “lençóis de vinho”, expressão muito usual na fazenda.
Foi então José Floriano à fazenda entender-se pessoalmente com Tereziano. Quando se aproxima da fazenda, Porfírio instou para que se retirasse, mas, José Floriano ousadamente entra no pátio da fazenda e aí recebe das mãos de Tereziano, uma bengalada.
Porfírio, com um cacete deixou José Floriano ensangüentado. Foi metido no cárcere da fazenda pó Porfírio auxiliado por outros escravos.
Pelos dias que se seguiram aparecia uma bandeja com vários alimentos ao que José Floriano recusava sempre.
À porta do cárcere , escravos que se rendiam, faziam guarda permanente.
A quem recorrer Floriano? Tinha que ali ficar.
Ao fim de cinco dias, aparecem na fazenda, as autoridades da Vila de Rio Preto, obrigando a José Floriano a assinar um “termo de bom viver”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Derrubada da ponte do Boqueirão.

Capítulo VII
A derrubada da Ponte do Boqueirão.



A ponte que passa entre o Boqueirão da Mira, construída por Pereira, é uma obra de arte que está causando no círculo dos engenheiros sérios estudos devido à sua construção . É ali que seu construtor vê o motivo para que sua estrada seja reconhecida.
Muito sólida, dá passagem diariamente às boiadas que descem pelas serras do Bom Jardim, às tropas e aos cavaleiros.
Se conseguisse jogar a ponte ao fundo do ribeirão Pirapitinga que por ali passa apertadinha vinha não só desmoralizar Pereira, como arruiná-lo. Dessa forma não poderia, esperar como era seu desejo, serem indenizados pelo Governo da Província os seus vultosos gastos na construção de estradas e pontes.
Seria uma estúpida agressão ao infortunado bandeirante da terra ribeirinha.
E, numa noite, em dia e mês do ano de 1856, Belizário Mariano de Morais, o administrador de Santa Clara, acompanhado de Calisto, “Tira-Prosa” e muitos escravos da Fazenda, vão ao Boqueirão trazendo sua gente munida de serrotes, mandando cortar as travessas da ponte, deixando-as de forma que na passagem de qualquer peso, cairia no ribeirão.
No dia seguinte- o milagre- passa uma boiada e nada acontece. Pouco depois o madeirame descia pelas águas agitadas do ribeirão Pirapitinga.
A este respeito o “Correio Mercantil”, da Corte, na sua edição de 16 de maio de 1856, publica o seguinte:
“A estrada do Boqueirão e a atrocidade inaudita”
O “Jornal do Comércio” e “Correio Mercantil”, de 11 do corrente publicaram ambos nesse mesmo dia uma notícia de grande alcance a que deve se prestar a toda atenção. Diz a “Gazetilha”
-Escreve-nos de Minas – A 20 de Abril de noite, homens perversos dirigiram-se à ponte colocada na estrada do Boqueirão, ultimamente feita pelo Sr Manoel Pereira da Silva Júnior, e ali armaram uma terrível cilada aos pobres viandantes, boiadas e tropas; arrancados os corrimões e muitas taboas do assoalho lateral, cortaram à serra as travessas sobre as quais descansam as linhas do mesmo assoalho( o lateral), e as deixaram presas pela grossura uma polegada e tanto; o menos peso seria o bastante para levar ao abismo, passageiros e bagagens, mas a Providência Divina, passou logo uma boiada de sessenta rezes sem o menor perigo !
Fez-se o auto do corpo de delito, mas, talvez, nisso ficará!”.
O “Correio Mercantil" coincidindo em dar a mesma notícia e um pequeno artigo, já deixava entrever melhor o fim a que se dirige a inocente publicação, acrescentando que os moradores da vizinhança, correndo imediatamente a escorar a ponte, perguntaram entre si, quem seria esse perverso, essa alma de tigre, esse assassino mesmo, que cometeu semelhante fato?
E, a essas perguntas o boiadeiro que assinou o artigo respondeu:
Segundo certo escritor quando se quiser conhecer o autor de um crime, procure — se antes de tudo saber a quem ele pode interessar.
Com efeito, se essa notícia, não for da meia noite, o atentado merece exemplar castigo, e as mais rigorosas investigações para o descobrimento de seu autor, muito mais havendo já o corpo de delito ; porém se começar aparecer descontos á notícia, dá se o publico a custar a crer que os serradores pudessem de noite, as escuras, regular a polegada de grossura que deixaram madeiras ou enfim se o negócio for algumas das costumadas invenções para serem decantadas pela imprensa como fingida oposição à sua estrada: então, meus senhores, botem, por hora, de quarentena a sua notícia porque o cansado romance e fingimento de perseguições ou oposições já está tão gasto e tão calvo, que nem mesmo a tal polegada de grossura que a serra deixou as taboas, poderá tapar - lhe a calva; nesse caso, aplicando a doutrina do escritor do nosso boiadeiro, cada um de nós interrogará a si próprio:- Quem será o miserável que tem o interesse em inventar tão ridículos embuste “.
"O Imparcial".

terça-feira, 23 de março de 2010

Algozes.

Capítulo VI
Algozes.

Aparecem nesta zona, alarmando a Vila do Rio Preto, as freguesias de Santa Rita de Jacutinga, Santa Isabel do Rio Preto e São Joaquim da Barra Mansa, cujas populações são pacatas e ordeiras dois indivíduos que se intitulam valentões.
O primeiro deles, o mais perigoso, chamava-se Quintino de Lima Sampaio, nasceu em 1827, na localidade fluminense de Angra dos Reis, e diz-se natural de Campinas, na Província de São Paulo.
Chegou aqui como feitor da fazenda de Pirapetinga, por recomendação do dr. Gabriel, e agora este o tem sempre a seu lado.
Seus antecedentes são péssimos.
Achando-se preso por crime de resistência no Quartel do 1º Regimento da Ca-valaria Ligeira da Corte, onde era ferrador, evadiu-se a 09 de Abril de 1859.
A fim de lograr a polícia, assina Manoel Joaquim da Silva.
Devido à sua arrogância de valentão, é conhecido nesses meios por “Tira-Prosa”.
É uma dessas almas criadas para o crime
Homem de maneiras rudes, grosseiros e descabidas, desagrada a toda gente, tratando os demais com aspereza.
Foi contratado, antes de aparecerem nas fazendas do vale do rio Preto, pelo tenente Vicente Lopes, fazendeiro na Freguesia de Santa Isabel do Rio Preto, para vingar de inimigos de sua pessoa.
Estão no número de seus inimigos, o seu próprio irmão Antônio Lopes e João Baptista dos Santos, o sapateiro da freguesia, que quase foi morto no terreiro da fazenda de Vicente Lopes, por “Tira-Prova” e quarenta escravos, fato este que é ainda muito comentado em Santa Isabel.
Fernando Ferraz e seu irmão Antônio Ferraz moravam na fazenda “Dois Irmãos” (fazenda de São Mathias), uma légua mais ou menos de distância da fazenda Pirapetinga.
Fernando Ferraz e Antônio Ferraz, dois portugueses que deixaram as suas vinhas na quinta província do Minho, vieram tentar fortuna no Brasil, fundando num dos ângulos do vale do rio Preto, a família Ferraz, hoje portadora de tantos títulos, pelos homens que descenderam desses troncos.
Antônio Ferraz veio para o Brasil ainda criança,Fernando Ferraz ,(irmão de Antônio Ignácio Ferraz), nasceu em 23/06/1829, casado com Marcolina Cândida Fortes.Era filho legítimo de Victorino Antônio Ferraz d’ Araujo e Mathildes Ignacia Francisca do Espírito Santo, com 36 anos, casado, fazendeiro, natural da Villa de Valença de Minho, Portugal.
Abaixo da fazenda de São Mathias,ergue-se a sede da fazenda de Pirapetinga, vendida por Manoel Pereira a Antônio Ignácio Ferraz.
Antônio Ignacio Ferraz é de origem portuguesa casado comCarolina Xavier Fortes uma das filhas de Dona Eleutheria Claudina Fortes,irmã do Barão de Monte Verde.
Naturais da vila de Valença do Minho, em Portugal. Fernando, irmão de Antônio, acompanhou-o ao Brasil, com o mesmo intuito: o de ganhar a vida em plagas brasileiras, tão irmãs daquelas que se estendem além do Atlântico.
Esses dois irmãos, depois de longos anos de trabalho honesto e produtivo conseguiram um mealheiro e adquiriram a fazenda denominada São Mathias, sendo, então, conhecida por fazenda “Dois Irmãos”. Como dito anteriormente, sita a uma légua mais ou menos, de distância da fazenda Pirapetinga.
Inimizaram-se, devido às artimanhas de “Tira-Prosa”, que usufruía proveitos pecuniários de ambos.Um dia, chegou e matou todos os cachorros, quase todos de estimação de Fernando, dizendo que foi a mando de Antônio.
Em conseqüência desse fato que veio a separar os dois irmãos, por uma inimizade criada por Quintino, Antônio Ferraz separou a velha sociedade que tinha com seu irmão. Antônio Ferraz era casado com uma filha de Dona Eleutéria Claudina Fortes, a filha do segundo guarda-mor do Registro de Rio Preto, Francisco Dionísio Fortes de Bustamante.

Inimizaram-se por ter “Tira-Prosa” matado os cachorros de Fernando Ferraz, tendo como conseqüência a transferência de Antônio Ferraz para a fazenda de Pirapetinga.



















Vestígios da fazenda São Mateus. Hoje, Santa Rita. FHOAA 2010.



Já em Santa Rita de Jacutinga “Tira-Prosa” é um homem que só em referir seu nome provoca pânico, pois esperou, na estrada do Passa Vinte, em um morro perto da casa de José Theodoro, seu desafeto José Vilela de Souza Meirelles que não caiu morto sob as punhaladas de seu terrível adversário, por ter galopado o animal.
Matou um homem em São João Marcos, na província do Rio de Janeiro, a man-do de outros, cujo crime ficou impune.
Outro indivíduo que com “ Tira-Prosa”, faz a dupla macabra é Calisto Marques da Silva, natural da vila de Tamanduá ( Itapecerica),desta Província.
Reside na Freguesia de Conservatória, há oito para nove anos. O seu serviço é no trabalho de machado e serras. Doma, também, burros bravios.
Portador de um sangue frio que põe os criminosos na classificação dos desnaturados que pedem o socorro duma intervenção psicopata.
Apenso nº 03 da província- Regimento de Cavalaria Ligeira- Nº01- Nota dos anais do ferrador abaixo declarado, que se evadiu deste Quartel, a 09 de abril de 1859, achando-se preso para sentenciar. Nº 53= Ferrador=Quintino de Lima Sampaio, filho de Manoel Caetano de Lima, natural de Angra dos Reis, nasceu em 1827= altura 62 e 1 /2polegadas, cabelos pretos, olhos pardos, ofício =ferrador, estando solteiro. Quartel em 03 de Maio de 1862. Francisco Joaquim Pinto Pereira = Major Graduado Comandante interino. Conforme o Secretário de Polícia- Leopoldo Henriques Coutinho.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A boca pequena diz que um tal de Mourão ficou de tocaia a beira da estrada a mando do dr. Gabrielzinho a fim de matar Pereira,como também, quando esteve pela última vez em Ouro Preto,havia ali um capanga com intuito de assassiná-lo, não o conseguindo por se desencontrarem.
Pela volta da capital da Província, Pereira encontra frente a frente com dr. Ga-brielzinho, mesmo na ponte do Boqueirão e, este nega cumprimento, coisa que não é de seu costume.

Numa tarde recebe uma intimação para ir à Fazenda de Santa Clara. Não atendeu.
No mesmo dia, à noite, quarenta escravos penetram em sua casa para levá-lo amarrado, o que não conseguiram, pois Pereira se escondera.
No dia seguinte escreveu ao dr. Gabriel uma longa carta pedindo acomodação sobre a estrada,desculpando-se pelo que lhe tinha feito.
Este ao receber a missiva chega até a ridicularizá-lo, dizendo ao portador que já estava terminando sua estrada para oferecê-la ao Governo da Província de Minas, não como a “Estrada Pereira”, que está errada, ficando assim o seu construtor perdido para sempre, pois o Governo não lhe pagaria os serviços prestados.
E, que sua estrada será melhor do que a que passa pelo Boqueirão, depois de acabada.
E, finaliza:
_Nossa família muito tem sofrido com essa luta que se chama Pereira.



Há um incêndio no engenho da fazenda de Santa Clara e os seus proprietários acusam Pereira do fato, abrindo um inquérito na delegacia de polícia da Vila, de que nada se apurou.
Capítulo VI

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crime da Cava Grande - Assassinato de Manoel da Silva Pereira Júnior.

Do barco que se apresenta com cambiantes de imponência, salta Pereira, deixando a bordo um escravo a fim de guardar a embarcação.
Entra mata adentro a procura de operários escravos que deverão passar para a outra banda do rio.
Existe defronte à fazenda uma ponte, mas o seu proprietário proibiu que Pereira com sua gente nela fizesse trânsito.
O administrador Morais que está em vigília permanente a fim de perseguir o malogrado construtor de estradas, chama os escravos da Fazenda de Santa Clara, os de nome Chico Gomes, Dezidério, Pio Serrador e o livre Domiciano, que é cunhado de José Pereira.
Com presteza retiram a barca para a terra firme, obrigando sob ameaça de morte, ao escravo vigia, a auxiliar nesse serviço.
Posta para fora d’água pegam em um trado, previamente preparado, fazem algumas perfurações no fundo da barca, colocam dentro grande quantidade de pedras a lançam-na no rio.
Como é de se esperar, a barca afunda incontinentemente.
Cá fora, Morais com sua gente, dão gargalhadas estrepitosas.
Procede-se desta forma é porque o comendador Souza Fortes o ordenara, pois estava indignado por ver Pereira entrar em suas terras, a fim de cavar a estrada que alcançasse Conservatória.
Antônio Ignácio Ferraz, o dono da Fazenda de São Francisco (Pirapetinga), esquecido da antiga amizade de Pereira, que se achava na fazenda do comendador,quando notou a indignação de seu visitado, deu a idéia de que se enchessem a barca de café da fazenda, prendessem e amarrassem o escravo que a vigiava, levassem-no preso para a vila do Rio Preto e denunciassem Pereira como ladrão de café, usando para isso sua barca.
O comendador Souza Fortes não deu consentimento para assim procedessem.
Duas lágrimas de pesar caíram pelas faces de Pereira quando testemunhou a cruel vingança feita pelos Fortes, pondo ao fundo das águas plácidas do rio Preto o seu aparatoso barco nem mesmo respeitando os pavilhões pátrios que nela drapejavam.
Resignadamente, subiu com sua gente, margem direita do rio Preto, mesmo em terras da fazenda São Fernando, indo atravessar o rio pela sua ponte defronte à sua antiga propriedade- Pirapetinga- (São Francisco).
Ir contra gente que só desrespeitava as leis do Império para humilhar a seus concidadãos é para Pereira uma tarefa ingrata, mas animado pelo grande círculo de seus amigos e com os beneplácitos dos governos provinciais de Minas Gerais e Rio de Janeiro, não esmorece.
Que fazer! Via que no término de suas obras, seriam compensados pelos cofres públicos os seus esforços sobrehumanos, reabilitando assim, o seu estado precário de finanças.
Tinha algum crédito ainda, mas este estava em cheque, pois o Dr. Antônio Joaquim Fortes de Bustamante, o mais ilustre da família, indo a Vassouras, dirigiu-se à “Casa de Furquírios X Irmãos”, onde Pereira tinha conta-corrente, pediu que não lhe adiantassem mais dinheiro porque Pereira não pagaria, visto não colher o café que dizia possuir; procedimento este reprovado pelas pessoas presentes.
Francisco de Paula Dias Moreira é empregado na fazenda São Luiz, da Marquesa de Valença, como administrador.
Indo à Bom Jardim, na volta passou pelo Solar da viscondessa de Monte Verde.
Ai encontra o dr. Gabrielzinho que esperando descobrir em Dias Moreira opinião contra a estrada do Boqueirão da Mira, pergunta-lhe:
_Como achaste a estrada do Boqueirão, Moreira?
_Esplêndida! Faz encurtar a viagem, pois gastei do Bom Jardim até aqui apenas seis horas, respondeu Dias Moreira.
Contrariado diz o dr. Gabrielzinho.
_ A mesma coisa não julga o Vigário de Bom Jardim que é pereirista.
_Digo-o com sinceridade, pois não sou pereirista nem fortista, respondeu Moreira, achei a estrada ótima.
_ O amigo ousa me contrariar? Diz dr Gabrielzinho todo indignado, fazendo o administrador da fazenda de São Luiz se retirar às pressas de Santa Clara.